terça-feira, maio 09, 2006

Reportagens publicadas

Os trabalhos finais de reportagem elaborados na disciplina de Estruturas Redactorias e Géneros Jornalísticos já estão disponíveis em:

http://w3.ualg.pt/~fcerolm/index_ficheiros/Page365.htm

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

NOTÍCIA/ACRAL e o projecto MODECA proporcionam oportunidades de emprego para jovens algarvios/ Inês Correia

A Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL) implementa na região o projecto Modernização e desenvolvimento do comércio do Algarve (MODECA).

O projecto MODECA está inserido no programa governamental INOV – JOVEM, no âmbito do Plano Tecnológico, e tem como principal objectivo a inserção nos quadros das empresas de jovens até aos 35 anos com formação académica superior. Pretende-se assim facilitar o acesso dos jovens a estágios profissionais, contribuindo para a sua inserção na vida activa e desenvolvimento das suas competências socioprofissionais. No âmbito do MODECA terão lugar nas cidades de Faro e Portimão duas acções de formação em “Gestão Comercial”, com início previsto para dia 1 de Abril. Depois de um período de formação especializada em sala, com a duração de 2 meses, os formandos poderão aplicar os seus conhecimentos em contexto de trabalho durante 9 meses. Os jovens licenciados que se inscreverem neste programa têm direito a uma bolsa de formação e de estágio mensal, com o valor equivalente ao dobro do ordenado mínimo mais elevado garantido por lei, subsídio de alimentação pelo período de 11 meses (uma vez que têm direito a um mês de férias) e subsídio de transporte. Os interessados em aderir a este projecto, sejam jovens empresários ou empresários interessados em receber nas suas empresas estes futuros profissionais, deverão apresentar toda a documentação necessária junto da ACRAL até à data limite de 28 de Fevereiro.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

ENTREVISTA/ Objectivo: integração / Eva, Jan, Nicola, Rudolf*

Licenciada em Assessoria de Administração pela Universidade do Algarve, Sofia Luz trabalha na Universidade desde 1996. Em 1998 iniciou funções na Escola Superior de Educação onde é, actualmente, responsável pelo Gabinete Internacional e pelo Programa Sócrates - Erasmus.

O Impertinente - Há quanto tempo trabalha no Programa Erasmus?
Sofia Luz – Eu trabalho com o programa Sócrates - Erasmus há 1 ano e meio.

O I. - Neste momento que países têm parceria com a ESE no âmbito do programa Erasmus?
SL. - A Escola Superior de Educação tem actualmente acordos bilaterais, no âmbito do programa Sócrates- Erasmus, com 16 países de União Europeia: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Holanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Polónia, Reino Unido, República Checa e Suécia.
O I. - Quantos alunos Erasmus estão actualmente na ESE? De que país vêm mais alunos Erasmus?
SL. - Neste ano lectivo de 2005 - 2006, no 1º Semestre, temos 20 alunos Erasmus a estudar na ESE. Na maioria são provenientes de Espanha e da República Checa.

O I. - Quais são as maiores dificuldades ou problemas com que se deparam os estudantes?
S.L. - Os alunos Erasmus quando chegam a Faro têm alguns problemas com o alojamento, com a língua, com o seu plano de estudos. Mas, no geral, integram- se bem.

O I. – Do que é que gosta mais neste emprego?S.L. - Gosto muito de trabalhar na área das Relações Internacionais e o melhor do meu trabalho é, sem dúvida, o contacto diário e a amizade que estabeleço com os alunos Erasmus.

O I. - O horário de trabalho é suficiente para as suas funções?
S.L. - Por vezes o meu horário de trabalho não é suficiente, pois o trabalho com os alunos Erasmus não se resume ao horário laboral. Tenho de ir buscá-los ao aeroporto, ajudá-los a fazer mudanças, levo-os a fazer viagens. Tudo isto fora do horário de trabalho.

O I.- O que pensa sobre o programa Erasmus?
S.L. - O programa Erasmus é uma possibilidade única para os estudantes, pois podem conhecer outras culturas, outros países, fazer novos amigos, conhecer novas línguas. É muito enriquecedor para os estudantes que participam neste programa.

O I. - Quantos estudantes da ESE estão a utilizar este programa durante o presente ano lectivo?
S.L. - Este ano estão 5 alunos em Santiago de Compostela, 2 em França, 1 na Polónia, isto no 1º semestre. Durante o 2º semestre os 5 alunos continuarão em Santiago e vai 1 aluno para a Áustria.


* alunos da disciplina de Estruturas Redactoriais e Géneros Jornalísticos ao abrigo do programa Erasmus

segunda-feira, janeiro 30, 2006

OPINIÃO/A propósito das decisões editoriais na noite das presidenciais / Cláudia Silva

Noite de eleições presidenciais. À medida que os resultados se consolidam, repete-se o ritual mediático. Primeiro discursam os derrotados. São momentos carregados de tensão. Discursos ansiosos. E não menos ansiados.

No último congresso do Partido Socialista (PS), Manuel Alegre candidatou-se à direcção do partido. Perdeu. Ganhou José Sócrates. Actual Primeiro Ministro. Que formou Governo com maioria absoluta. Que preteriu Manuel Alegre como candidato às Presidenciais. Que apoiou a candidatura de um histórico do PS: Mário Soares. Manuel Alegre candidatou-se sem o apoio do Partido Socialista (PS), dando corpo e voz ao que chamou “movimento de cidadãos”. Ficou em 2º lugar, a cerca de 30% do vencedor, Cavaco Silva. Não passou à segunda volta, que era o seu maior objectivo. Mário Soares ficou-se pelos 14%.
As questões que se põem são as seguintes: Mário Soares, o candidato apoiado pelo PS e pelo Primeiro Ministro já havia discursado; Manuel Alegre tinha começado há escassos minutos a sua declaração, quando o Primeiro Ministro decide também falar para as televisões; os editores têm que decidir em segundos o que mostrar ao país: a intervenção de Alegre ou as declarações de Sócrates? Todos os canais generalistas nacionais optaram pela segunda hipótese. Decidiram bem? Decidiram mal? Como se tomam decisões editoriais nestas circunstâncias? O que O Impertinente propõe aqui é uma breve ronda pela blogosfera nacional, a propósito do tema. Veja o que estes bloggers disseram:

Francisco José Viegas

Pacheco Pereira

Gabriel Silva

João Pedro Henriques (5)

Eduardo Pitta

Constança Cunha e Sá

sexta-feira, janeiro 20, 2006

ENTREVISTA / O ambiente em destaque – o ponto de vista de um jurista / Cláudia Silva


José Leiria tem 34 anos, é advogado há 11 e pertence ao Conselho Distrital da Ordem dos Advogados de Faro. É jurista do Parque Natural da Ria Formosa (PNRF) desde 2000 e da Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território do Algarve (DRAOT) desde 2004.

O Impertinente – Gostaria que começasse por definir qual o papel de um jurista em instituições públicas como o PNRF e a DRAOT. Concretamente, o que é que faz um jurista ambiental?
José Leiria – Um jurista tem duas funções essenciais. Uma função versa sobre dar pareceres perante requerimentos que são feitos por particulares, ou seja, qualquer interessado faz um requerimento a uma instituição pública na área do ambiente e essa instituição tem que dar resposta. A resposta muitas vezes necessita de um parecer de um jurista em termos da legalidade da decisão a ser tomada pela entidade administrativa. Por outro lado, em termos da fiscalização, ou seja, da punição das infracções que são postas perante a entidade administrativa, toda a organização do processo de contra-ordenação e depois a aplicação da sanção a que houver lugar em face de cada uma das situações. São estas duas as duas áreas em que o jurista trabalha, em termos do ambiente, para as várias autoridades administrativas.

OI – A seu ver, qual é o problema ambiental mais grave no Algarve?
JL – O problema no Algarve, e penso que a nível nacional, é em termos de planeamento. Ou seja, não existe qualquer planeamento no Algarve sobre o que deve ser ou o que se quer do Ambiente, sobre o que é que se quer do turismo, e a ligação entre o turismo e o Ambiente. Enquanto não houver esse planeamento, há medidas ad hoc que são tomadas e nunca poderá haver um desenvolvimento sustentado do Ambiente, tendo em atenção o turismo e os interesses económicos do Algarve.

OI – Na sua opinião, a legislação portuguesa adequa-se aos problemas ambientais do nosso país e, concretamente, da nossa região?
JL – É evidente que não, mas esse penso que é um mal geral da legislação em termos do Ambiente. Só se começou a tratar do Ambiente há cerca de vinte, trinta anos. A legislação do Ambiente, mais ou menos, com alguma qualidade, surgiu há cerca de vinte, trinta anos, portanto, ainda é uma legislação, digamos, primária, são os primeiros planos que apareceram, agora estamos numa segunda versão desses planos, que no entanto, continuam desactualizados da realidade. Isso depois acaba por se reflectir em termos do ordenamento do território – é essencialmente o que acontece na região do Algarve.

OI – Em termos gerais, quais os limites mínimos e máximos, relativamente às coimas, para as infracções ambientais?
JL – Essa é uma questão de difícil definição, porque as panóplias de infracções são tão grandes - desde pessoas que capturam pássaros, que tem uma sanção que é mais baixa, desde outras pessoas que passeiam nas dunas com veículos, também é outro tipo de infracção. Quer dizer, é impossível fixar uma média, é um valor relativo. Tanto pode ir desde os cinquenta contos aos cinco mil contos (falando na moeda antiga), portanto, depende do tipo de infracção e da gravidade da mesma.

OI – Alguém pode ir preso, em Portugal, por cometer um crime ambiental?
JL – Por crime ambiental, teoricamente, pode. Teoricamente, desde que haja um crime contra o ambiente, pode a pessoa ser presa, agora, na prática, não se conhece qualquer situação dessas, que tenha acontecido.

OI – Há pouco disse que havia duas vertentes da actuação do jurista e falou, nomeadamente, da fiscalização. As polícias entram também nessa fase da fiscalização? Os processos são levantados pelas polícias? Pode explicar melhor como é que isso se passa?
JL – Em termos de fiscalização, normalmente os organismos têm órgãos próprios de fiscalização, por exemplo, os vigilantes das áreas protegidas, que podem levantar os processos de contra-ordenação. Não obstante, a polícia pode também sempre levantar qualquer processo de contra-ordenação. A GNR tem uma brigada, que é a EPNA – Equipa de Protecção da Natureza e do Ambiente – que é uma brigada, digamos, verde, uma brigada contra os danos do ambiente, que, efectivamente, levantam muitas situações. Falta-lhes, talvez, é uma certa sensibilidade para os problemas do ambiente.

OI – Qual a infracção ou crime ambiental que tenha passado pelas suas mãos, enquanto jurista, que mais o chocou até hoje?
JL – Como princípio, não é correcto da minha parte falar em termos da clientela e de processos em concreto, por respeito pelo cliente e até por uma questão deontológica de sigilo profissional. Mas, em termos gerais, uma das situações que mais choca, penso que a toda a gente, é a das construções ilegais, nomeadamente nas ilhas barreira. Ou seja, existem construções ilegais, sabe-se que existem, continuam a fazer-se construções ilegais e há uma impotência para actuar sobre essas situações. E, portanto, nós sabemos que, nestes casos, a infracção compensa, ou seja, o cometimento de uma infracção, em termos gerais, compensa. É muito difícil, politicamente, gerir esses casos. E até em termos práticos, demolir nas ilhas é uma questão muito complicada.

OI – Do que conhece, esse tipo de habitação é habitação própria das pessoas, por não terem outros recursos ou é uma habitação para passar férias?
JL – Temos os dois tipos – temos muitas situações em que são habitações próprias das pessoas e temos outras situações em que são habitações de férias.

OI – Qual a desculpa ou motivo mais invocados pelos infractores para essas construções?
JL – Normalmente, quando se reporta a situações de pessoas que residem, é quando aumenta o agregado familiar. Ou seja, a desculpa que as pessoas apresentam é que precisam de mais uma divisão, porque aumentou o agregado familiar e, portanto, ampliam essas construções. Ou, outra situação, quando essas construções são vendidas, a nova pessoa que adquire a casa diz que precisa de mais área, porque tem uma família maior – e, portanto, normalmente é essa a desculpa.

OI – Analisando o tempo em que já trabalha nesta área, o número de processos instaurados tem aumentado ou diminuído?
JL – O número de processos instaurados tem aumentado. Não porque as infracções sejam em maior número, mas porque há mais meios para actuar. Hoje em dia, a administração está a descobrir que compensa ter juristas a trabalhar, que levantem contra-ordenações, que as pessoas sejam punidas, porque as coimas que recebem são superiores ao que pagam aos juristas.

OI – Qual a maior dificuldade ou obstáculo que encontra na sua actividade?
JL – O maior obstáculo, essencialmente, é alguma legislação que torna difícil executar todo o processo de contra-ordenação, por ventura, a necessitar de reforma, e, por outro lado, também a falta de alguma vontade política para tomar determinadas atitudes.

OI – Qual costuma ser a sua maior preocupação, quando o processo chega às suas mãos?
JL – A preocupação essencial é que a infracção não compense – esta é a preocupação essencial. Ou seja, quando nós organizamos um processo, queremos que a pessoa perceba que não pode praticar aquela infracção. E depois, iremos actuar segundo essa fórmula. Existe também o problema das prescrições, ou seja, há um tempo limitado para se punir qualquer pessoa, ninguém pode ficar eternamente à espera do processo ser decidido.


OI – Qual acha que tem sido o papel das autarquias na área do Ambiente?
JL – Em termos gerais, tem sido um papel prejudicial ao meio ambiente, essencialmente. Basta ver em termos de construções, basta ver em termos do cuidado que têm em termos de planeamento, que é nitidamente prejudicial ao ambiente. Esperemos que comecem a ter consciência das asneiras que foram feitas no passado e que tomem medidas para melhorar a qualidade daqueles que aí vivem e em termos ambientais. Quando não há planeamento, interessa é, digamos assim, vender as casas e as casas junto à praia ou junto a um ambiente saudável são muito mais caras. Se houver um planeamento, claro que se poderia construir muito menos casas, não se ganharia tanto no imediato, mas se calhar, a longo prazo, seria benéfico para todos

OI – É optimista quanto ao futuro – acha que é possível reverter esta situação?
JL – Sinceramente, tenho muitas dúvidas. Tenho muitas dúvidas porque não se vê qualquer medida dos nossos dirigentes que visem a mudança, ou seja, não existe sequer um plano para o Algarve e enquanto não existir um plano, a médio ou longo prazo, não haverá qualquer hipótese de melhorar a qualidade de vida em termos ambientais no Algarve.

OI – Há também uma corrente recente, que se insurge contra o chamado Ecofascismo - uma certa tendência para relegar para segundo plano certos direitos humanos básicos, em nome de valores ambientais tidos por “superiores”. Num país como o nosso, em que há ainda tantas pessoas que não têm as suas necessidades básicas supridas – como habitação, saneamento básico – acha que a defesa do ambiente deverá ser uma prioridade de primeiro plano?
JL – Como tudo, deve ser tratado com algum bom senso. Ou seja, há várias questões dentro da política ambiental que têm que se ter em atenção. Por um lado, a questão económica. É uma questão que, necessariamente, tem que se ter em atenção – há interesses económicos, há o turismo – não se pode ter radicalismos em termos da defesa do ambiente. Mas é possível encontrar um ponto de consenso, um ponto de convergência, entre o turismo e a parte ambiental. Assim como quanto às necessidades básicas das pessoas, ou seja, não podemos ser radicais em relação ao ambiente e prejudicando as pessoas e as suas necessidades básicas, e até os interesses económicos e o turismo, como não podemos olhar às necessidades das pessoas sem ter em atenção o ambiente. Ou seja, tem de se encontrar uma solução de bom senso, mas tendo sempre respeito pelo ambiente.

OI – Sente que a sua posição acerca dos problemas ambientais mudou, desde que trabalha directamente nesta área?
JL – Essencialmente, sendo menos radical. Ou seja, enquanto quando a pessoa está de fora, tem, na minha perspectiva, uma visão mais em prol do ambiente e de não deixar fazer qualquer coisa que afecte o ambiente. Depois de se trabalhar neste campo, tem-se mais a noção e mais sensibilidade para os vários interesses em jogo. E, portanto, só nesse aspecto é que acho que a minha posição mudou.

OI – Para terminar, gostaria de lhe perguntar como é que vê o futuro próximo do Ambiente no Algarve e quais as prioridades mais urgentes a tomar?
JL – A prioridade, como aflorámos em várias questões é um planeamento adequado. Se houver um planeamento – dizer o que é que se quer do Algarve, dizer quais os locais de qualidade em termos de turismo e valorizando o ambiente para esse turismo, se houver a definição disso, poderá haver algum futuro. Se não, se continuarmos com a mesma política que temos tido até agora, já destruímos uma parte do Algarve, e vamos acabar por destruir o resto.


Créditos foto: Cláudia Silva

quarta-feira, janeiro 18, 2006

OPINIÃO / Campanhas para as Presidenciais: Factos ou Pseudo-Acontecimentos? / Cláudia Silva


Daniel Boorstin, em 1961, introduziu o conceito de pseudo-acontecimento[1] para definir várias situações desenvolvidas por jornalistas, políticos e relações públicas para criar um evento que, em condições normais, não se produziria. Trata-se de um acontecimento que não é espontâneo, mas que surge por que alguém o planejou ou o encorajou para que fosse noticiado. A sua relação com a realidade é ambígua, em muitos casos serve para dar estatuto de real ao que é fictício.
Gostaria aqui de lançar a reflexão sobre um incidente recente numa das campanhas às Eleições Presidenciais à luz deste conceito de Boorstin.

Segundo o site oficial da sua candidatura à presidência da república, Cavaco Silva foi no passado dia 9 de Janeiro a Leiria, almoçar com "os jovens que têm 'colorido' a campanha com uma onda de entusiasmo".
A Antena 1 esteve lá e nos habituais "Diários de Campanha", da responsabilidade da jornalista Maria Flor Pedroso, relatou que neste encontro actuou uma tuna – a Tuna Académica da Escola Superior de Enfermagem de Leiria - e que Cavaco Silva posou sorridente para as fotos, o que se pode comprovar facilmente em vários jornais e revistas.
De acordo com a informação avançada pela Antena 1, a tuna foi paga pela campanha.Compare-se as palavras do candidato, reproduzidas na notícia em destaque no site (1) e as palavras do magister da tuna (2), aos microfones da Antena 1:
(1) " 'São vocês que vão credibilizar a vida política. Acredito na vossa capacidade para dar mais prestígio à vida política portuguesa', disse [Cavaco Silva] agradecendo a animação, a energia e o entusiasmo que os jovens trouxeram para as suas iniciativas de campanha."
(2) "Não estamos aqui a apoiar politicamente ninguém. Pagaram-nos para animar o encontro e é isso que estamos a fazer."
Este tipo de incidentes não é exclusivo da campanha de Cavaco Silva. Pelo contrário, alerta para a necessidade de reflexão sobre os apoios divulgados pelas campanhas de todas as candidaturas e noticiados pela comunicação social. As manifestações de apoio são genuínas e espontâneas ou encenadas e fabricadas? Estamos perante factos ou perante pseudo-acontecimentos? A questão impõe-se. A reflexão também.


[1] Daniel J. Boorstin (1961), The Image: A Guide to Pseudo-Events in America, First Vintage Books Edition, (1992)

Créditos foto: Lusa (SIC Online)
Legenda original foto:Cavaco Silva, com boina oferecida por estudante de uma Tuna durante a campanha em Leiria

terça-feira, janeiro 17, 2006

ENTREVISTA / “Só a bolsa não chega para tudo” / Águeda Varela

Samira Marques tem 29 anos e é uma das muitas estudantes cabo-verdianas na Universidade do Algarve. Está em Faro há nove anos e há cinco que não vai à sua terra natal. Agora que acabou o curso de Informática – ramo de Gestão, vai voltar a Cabo Verde e rever tudo o que deixou para trás para poder vir em busca de uma garantia de trabalho, pois as oportunidades escasseiam e só quem tem algo diferente dos outros, como um curso que até há pouco tempo não existia lá, consegue vencer.

O Impertinente - Porque escolheu vir estudar para Portugal?
Samira Marques - Eu não escolhi vir para aqui. Em Cabo Verde, nós inscrevemo-nos e conforme as vagas das universidades vamos ou para Portugal ou para o Brasil. Só depois de vir para cá é que abriu o mesmo curso em Cabo Verde.

O I. - Quais foram as principais dificuldades ao chegar cá?
S.M. - Quando cheguei não tinha contactos de ninguém aqui. Tive de me desenrascar sozinha porque não tive nenhum apoio da embaixada (de Cabo Verde).

O I. - Também estão cá outros alunos na mesma situação. Apoiam-se uns aos outros?
S.M. - Antigamente éramos mais unidos. Tínhamos uma associação, juntávamo-nos e ajudávamos sempre uns aos outros. Mas muitos já se foram embora e agora, do meu grupo, somos poucos.

O I. - Tinhas alguma bolsa do Estado para estudar cá? Era suficiente para tudo?
S.M. - Podemos vir com bolsa do governo de Cabo Verde, da Câmara de cidade para onde vamos estudar ou do Governo português. Depois podemos também escolher ter vaga como alternativa e eu candidatei-me à bolsa porque se for só vaga é por conta própria. Mas, como só a bolsa não chega para tudo, tive de arranjar um emprego para conseguir ter dinheiro até ao fim do mês.

O I. - Como é estar longe da família tanto tempo?
S.M. - É o mais difícil porque já não vou a casa há muitos anos. Além disso, deixei lá um namorado, mas não parei a minha vida, nem ele a dele. Temos falado todos os dias. Agora vou para lá e se der, continuamos juntos, se não ficamos amigos.

O I. - Como passava cá o Natal?
S.M. - Passava com os meus tios em Lisboa. O Natal e o final do ano.

O I. - Tem uma irmã mais nova, também a estudar aqui. Como a ajudou?
S.M. - A Rosana teve sorte por eu estar aqui, teve a sorte que eu não tive. Arranjei-lhe trabalho porque ela veio só com a vaga, não tem a bolsa. Ajudei-a com a escola e com a casa para morar no início.

O I. - Qual é a imagem que leva do ensino de cá?
S.M. - Não gostei do meu curso por causa dos professores. A maioria era estrangeira e não falavam bem português. Eu gostei mais de Cabo Verde, mas como estive aqui tanto tempo, agora, para mim, é igual o funcionamento das escolas.

O I. - Como é o balanço que faz de tudo o que passou aqui? Se surgisse outra oportunidade, voltava?
S.M. - Foi positivo, apesar de alguns contratempos. Voltava, porque deixo cá a minha irmã, muitos amigos, o meu trabalho e foi uma boa experiência.

O I. - Quais as suas perspectivas para o futuro?
S.M. - Em Cabo Verde não há muita gente com o meu curso de Informática. Vai muita gente com o curso de Gestão de Empresas e Turismo, mas com o meu não há muitos, por isso vou arranjar um emprego rapidamente.

Com o curso acabado e muitas experiências vividas ao longo de nove anos, Samira Marques leva a bagagem muito mais cheia do que quando chegou. Nem tudo foram rosas, mas a vida passada aqui foi sem dúvida “uma boa experiência”.

ENTREVISTA/ Metal Negro/ Tiago Griff

O que para muitos é barulho, para outros é uma forma de estar. Um estilo de música com seguidores em todo mundo, com fortes opiniões sobre a religião e a sociedade, tenta passar uma mensagem que por vezes é mal entendida.

Para compreender um pouco melhor a música black metal, o Impertinente conversou com Filipe Guia, o vocalista da banda algarvia Deep Odium.
O Impertinente- O que é black metal para ti?
Filipe (Perverter) Guia - O black metal para mim é um estilo de vida pautado por um forte espírito crítico perante tudo e todos. Para além disso é ainda um estilo musical com uma forte componente de agressividade (no bom sentido da palavra) tanto a nível lírico como a nível sonoro, sempre virado para uma permanente crítica ao que nos rodeia, com especial incidência na religião. É apenas uma das muitas vertentes que (de)compõem o metal e sofre ainda ramificações originadas pela fusão do black metal com outros géneros. Neste momento, black metal para mim está conotado a Deep Odium, banda algarvia de black metal à qual estou presentemente ligado como vocalista.

O I. - Porquê e como começaste a ouvir?
F.G. - Comecei a ouvir metal há cerca de uns bons 10 anos. Foi o primeiro estilo musical que verdadeiramente me levou a gostar de música e devo agradece-lo à minha irmã que desde cedo começou a gostar de som mais pesado, apesar de hoje em dia não acompanhar o género. As suas tapes de Metallica, Iron Maiden, etc. levaram-me a interiorizar o espírito e procurar com avidez conhecer mais e melhor o mundo metálico e desde cedo o género do black metal se destacou nos meus gostos.

O I. - Qual a mensagem predominante nesse estilo de música?
F.G. - A mensagem predominante do black metal passa por incentivar as pessoas a usar do seu livre arbítrio, a combater dogmas, verdades absolutas, passa por alertar as pessoas para o perigo do “cordeirismo”, ideia muito seguida e difundida através da religião, seja ela qual for. É esse o inimigo, é esse o perigo real com que nos debatemos diariamente e que o black metal tenta contrariar, ou pelo menos algumas bandas pois outras, as que geralmente se auto-intitulam como as praticantes do true black metal, não passam de outras belas m..... extremistas sem interesse.

O I. - Achas que te influencia no teu dia a dia?
F.G. - Claro que sim, na minha forma de pensar, de (sobre)viver, de vestir, de acasalar, enfim, em tudo na vida.

O I. - Achas que esse tipo de música influencia muito quem a ouve?
F.G. - Claro, como tudo o que entra em contacto com o nosso ser, a música também influencia. Agora, isso não representa uma justificação para que uma pessoa faça A ou B. O ouvir de uma música extrema não quer dizer que a pessoa tenha de sair à rua para bater em tudo e todos. A mim, ouvir black metal, por exemplo, acalma-me o espírito ao contrário do que possa parecer para quem está de fora. Tenta-se atribuir à musica mais pesada actos violentos que certos indíviduos por vezes cometem mas isso não me parece lá muito correcto, pois também vejo por aí muitos casos de padres pedófilos e não me parece que seja a música sacra a obrigá-los a tal. É mais um conjunto de vários factores que leva a certos actos de violência e não a música em exclusivo.

O I. – Há quanto tempo tocas?
F.G. - Canto há cerca de 5 anos.

O I. – O que sentes quando tocas?
F.G. - Prazer, muito prazer.

O I. - Qual a tua relação com o público?
F.G. - Acho que é boa, penso que consigo criar uma certa empatia com o público pois puxo um pouco para o humor e isso cai sempre bem. Por outro lado, levo vinho para os concertos e isso ainda leva a uma melhor aceitação por parte do público, a não ser quando o vinho é do Lidl S.A.

O I. – Achas que existe uma cena black metal no Algarve?
F.G. - Sim, mas muito diminuta. Organizam-se até bastantes festivais no Algarve mas há pouca adesão. No entanto, por vezes conseguem-se criar ambientes muito bons em certos concertos mais pequenos.

O I. – Quando começou e como é que achas que está, como se tem vindo a desenvolver com o passar dos anos?
F.G. - Começou nos anos 90 e penso que se desenvolveu um pouco pois hoje em dia já há mais oferta em termos de bandas como na altura não havia e a publicidade é maior com o uso da Internet, o que cativa mais jovens para as hostes metaleiras. No entanto, ainda é um movimento bastante underground.

O I. – Achas que o estado te ajuda de algum modo a divulgares, a dares concertos ou a nível monetário a tua banda?
F.G. - Ajuda, não se metendo no caminho. Algumas Câmaras, como a de Lagoa, apoiam com o empréstimo do P.A., mas o resto é por nossa conta. Dinheiro e concertos nem ver, os fundos reservados pelas Câmaras deste País para a área cultural estão destinados para os “Bacalhaus quer alho” e “Chupa-Chupa”, que é o que faz movimentar a maior parte dos eleitores deste País.

O I. – O que achas que o estado devia fazer de modo a ajudar as bandas em geral?
F.G. - A nível camarário, deveriam aplicar os fundos culturais de que dispõem para ajudar as jovens bandas da região. A nível nacional, o estado deveria garantir maiores isenções fiscais às entidades que dessem apoio a jovens bandas nacionais, não diferenciado as mesmas.

O I. – No que é que se inspiram para fazer as letras?
F.G. - Principalmente nas várias religiões, predominantemente a católica pois é a mais prepotente e a que se tenta impor mais às outras, e a forma como estas tentam manipular o indíviduo a esquecer a sua individualidade em prol de um suposto Deus, o qual tendem a ser eles próprios a inventar consoante o seu interesse. Abordo também algumas histórias e perversões que a guerra e a mente humana constantemente nos oferecem.

O I. – Sentes que precisas de refrear algumas das tuas letras ou certos actos que tens no palco para não influenciar alguém negativamente?
F.G. - Não, mas também não abusamos demasiado pois não precisamos de chocar ninguém para passar um bom bocado e passar a nossa mensagem.

O I. – Sentes-te um actor social?
F.G. - Sim, mas impotente para mudar o mundo. Pelo menos uma pequena pedra no sapato da sociedade dita moral e puritana.

O I. – A tua banda é uma coisa prioritária ou é só para desanuviar?
F.G. - Neste momento, não funcionando como ganha-pão, serve apenas como escape mental e uma forma activa de expressão. Sintetizando, é só para desanuviar.